sábado, 6 de dezembro de 2008

ALGO NASCEU

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Naquele tempo e lugar algo diferente aconteceu. A terra era árida, pobre e infeliz. Nela tudo era dor, miséria, fome, revolta. O invasor romano dominava soberbo, humilhando o povo e esmagando o direito de sonhar, única riqueza daquela gente. A dor maior, porém, por ser escondida e por isso mais doida, vinha de mais longe. Era um tempo de angústia e espera.

Foi então que algo surgiu com um jeito novo, doce, envolvente, como se fosse um afago, um convite ou então uma resposta. Seria alguém? Seria uma idéia? Ou seria somente o emergir de um arquétipo plasmado no inconsciente coletivo representando aquela coisa indefinível sem a qual a vida é impossível.

Real ou virtual, não importa, algo nasceu como um sol interior, uma fonte de luz que, vencendo a escuridão da noite, iluminou aquele cenário triste revelando que, ao lado da dor, havia uma beleza escondida, mesmo naquele tempo e lugar.Um calor novo aqueceu corações e, então, devagarinho, mãos crispadas se distenderam e se levantaram na direção de outras mãos tornando a jornada mais fácil. Algo bom, estimulante começou alí. Algo que fez pensar, que fez agir, que fez viver nasceu naquele tempo e lugar: a utopia da solidariedade.
A revolução da esperança havia começado.
Feliz Natal
Maurice H. Jones

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O SALTO DE KIERKEGAARD

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Um alpinista solitário buscando fugir, durante a noite, de uma tempestade de neve na montanha que escalara, perde o equilíbrio, precipita-se no abismo e é, então, salvo pela corda de segurança que ancorara na rocha gelada. Suspenso pela corda, em completa escuridão, sem condição de retornar e desconhecendo a profundidade do abismo, deixou-se ali ficar, em angustiosa espera, pois sabia que o frio intenso o mataria em poucas horas e que a única alternativa para esta morte lenta seria desvencilhar-se da corda e saltar para uma morte rápida.
Dominado pelo pavor, naquela vigília que parecia não ter fim, ouve uma voz forte que, superando o medonho ruído da nevasca, ressoa autoritária na sua mente determinando: - Salta, salta e te salvarás.
Várias horas depois, quando a luz do dia retornou e a tempestade amainou, uma equipe de resgate encontrou o trágico personagem já sem vida, ainda agarrado à sua corda e com os pés suspensos no ar a somente cinqüenta centímetros do solo firme.
A fé o convidava ao salto salvador, mas naqueles momentos de angústia e solidão, prevaleceram os argumentos da razão. Esta lhe acenava com a possibilidade, remota é verdade, de sobreviver ao frio e ser resgatado.
Este episódio emblemático, cuja origem não recordo, nos coloca diante do problema da fé que, na visão do pensador dinamarquês Soren A. Kierkegaard (1813-1855) é, definitivamente, um modo de existir que nos põe em relação com o absurdo. Para ele o acesso à verdade suprema depende da crença no absurdo, naquilo que Paulo de Tarso chamou de “loucura”. Por isso, dizia ele, “creio porque é absurdo“.
A angústia que acompanha a fé estaria ilustrada, no entender de Kierkegaard, no episódio bíblico no qual Deus pede a Abraão o sacrifício de seu filho Isaac para demonstrar a sua fé, o que, segundo a ética dos homens, é absurdo e desumano. Abraão não hesitou: aceitando o absurdo da exigência divina saltou da razão e da ética para o plano do absoluto, âmbito em que o entendimento é cego. Para este pensador a fé cristã é superior a ciência por que indica a certeza mais alta, uma certeza que se refere ao paradoxo, portanto ao inverossímil. A fé representa, assim, um salto no escuro e, sendo a crença inseparável da angústia, Kerkegaard dizia que o temor de Deus é inseparável do tremor.
Os episódios que ilustram esta reflexão podem ser apreciados de duas maneiras. A visão fideista, desprezando a razão e privilegiando a fé no conhecimento das verdades, certamente aprovará a obediência de Abraão e lamentará a desobediência do alpinista. Já uma visão racionalista, livre pensadora e até mesmo o nosso conhecido “senso comum”, considerará perfeitamente razoável a resistência do infeliz alpinista ao comando daquela voz, ao mesmo tempo em que se horrorizará com a absurda e desumana ordem dada a Abraão que, por isso, deveria ignorá-la.
O confronto entre estas duas visões, que representam momentos distintos na história do pensamento humano, é evidente. A visão medieval, teocêntrica, em que a fé é, sobretudo, submissão, obediência, é desafiada, a partir da renascença, pelo racionalismo humanista. O homem, adolescente rebelde, propõe a Deus um novo contrato em que a parceria substitua a obediência cega, pois ele já “não aceita mais crer de olhos fechados, pois quer saber de olhos abertos”. Identificando-se, assim, como legítimo filho de Adão que renunciou ao paraíso pela liberdade de escolher, de errar, de crescer.
A partir deste momento, a necessidade de uma síntese se torna crescentemente imperiosa. Para isto, porém, seria necessária uma mudança na forma de ver o fenômeno, adotando um raciocínio dialético em substituição ao lógico.
O Espiritismo surge no momento histórico em que esta síntese se torna possível. O fideismo tinha muito poucos defensores e, por outro lado, era bem menor a paixão pela razão, como único meio de se chegar ao conhecimento da realidade.
O jornalista Luiz Signates em um excelente e fundamentado artigo nos fala da conciliação, no Espiritismo, desses conceitos antagônicos que se conjugam na explicação da realidade, resultando numa fé aberta, dialogal que forma um par dialético inseparável com a razão.
A natureza sintética do Espiritismo, tão bem destacada por Leon Denis, torna-se evidente no conceito de “fé raciocinada” que Kardec incorporou ao pensamento espírita.
A visão dinâmica e livre pensadora oferecida pelo Espiritismo nos convida enfaticamente a superar dialeticamente o conflito entre a postura de submissão alienante do fideismo e a arrogância racionalista, com aquilo que José Herculano Pires chamou de fideismo-crítico, ou seja, a nossa fé raciocinada.
Analisando o aparente paradoxo desta expressão na obra A Revolução da Esperança, o psicanalista Erich Fromm diz que a fé é irracional quando é submissão a determinada coisa que se aceita como verdadeira independentemente de sê-lo ou não. O elemento essencial desta fé é o seu caráter passivo. Já a fé racional refere-se ao conhecimento do real que ainda não nasceu; baseia-se na capacidade de conhecimento e compreensão que penetra a superfície e vê o âmago. A fé racional, continua ele, não é previsão do futuro; é a visão do presente num estado de gravidez; é a certeza sobre a realidade da possibilidade.
Sintetizando o modo pelo qual o Espiritismo aborda o problema da fé, poderíamos dizer, parafraseando Herbert Spencer, que “existe uma alma de razão nas coisas da fé e uma alma de fé nas coisas da razão”.
Maurice Herbert Jones

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

MORAL E RAZÃO

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"É preciso institucionalizar a solidariedade, isto é,
criar uma ética da solidariedade". Hélio Pelegrino - Psiquiatra
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Para Sócrates, o maior dos problemas da filosofia seria o encontro de uma ética natural que tomasse o posto da ética sobrenatural que estava sendo destruída pela filosofia. Se fosse possível construir um sistema de moralidade independente de credos teológicos, estes credos poderiam desaparecer sem prejuízo para o cimento que faz de simples indivíduos cidadãos de uma comunidade.
O grande desafio humano, em todas as épocas, tem sido conter em níveis suportáveis as manifestações egoísticas que buscam obstaculizar o processo civilizador construído, penosamente, pela ação altruísta.
Os códigos morais de todas as culturas buscaram na autoridade divina respaldo para a imposição de modelos comportamentais que, controlando os impulsos egocêntricos, tornassem possível a vida comunitária.
Se for verdade que esta pedagogia impositiva e paternalista foi eficiente para nos arrancar da barbárie e construir a civilização que conhecemos, mostra-se crescentemente ineficaz nos dias atuais. O filósofo e pedagogo americano John Dewey declara no seu livro “A Common Fayth” que o homem não tem usado de modo amplo os poderes que lhe são inerentes para melhorar as próprias condições de vida, porque tem esperado muito do auxílio divino e da natureza.
Diante do enfraquecimento da moral de fundamento religioso, já que a determinação divina é cada vez menos respeitada pela humanidade, histórica e mitologicamente desobediente, buscamos ainda agora, uma moral de base racional produto de um conhecimento mais amplo da vida e seu significado. O grande problema da ética como estudo racional da moralidade se resume em saber se é desejável ser bom e, em caso afirmativo, como pode ser o homem persuadido a ser bom.

Seria o Espiritismo uma resposta inteligente e oportuna a estas questões? Vários elementos que estruturam o pensamento espírita sugerem que sim.
É verdade que não existe uma moral Espírita e sim uma postura moral que decorre naturalmente do conhecimento e da aceitação dos fundamentos essenciais do Espiritismo. A idéia da evolução e, sobretudo, o princípio da reencarnação, a ela subordinada, que determina a troca de papéis nas diversas experiências físicas, oferecem substrato racional riquíssimo para a adoção consciente de um modelo comportamental fundamentado na tolerância racial e social, na solidariedade enfim.
A percepção espírita de uma “lei de causa e efeito”, disciplinadora da evolução no plano físico e no plano moral, torna o homem responsável pelos seus atos e, também, arquiteto do seu destino. Esta visão marcadamente humanista foi também compartilhada pelo pai da Psicanálise, Sigmund Freud, a quem se atribui a afirmação de que “o homem realmente esclarecido é espontaneamente moral, sem precisar temer o castigo divino.”
Na visão Espírita a sociabilidade é uma das leis naturais e o problema moral, isto é, o problema de assegurar a dignidade humana sem recorrer a fábulas ou à força seria de todo insolúvel se a moralidade estivesse em completa oposição à natureza.
No início do século XVII o notável Francis Bacon nos oferece uma interessante teoria de moral natural que só pode ser corroborada depois do advento de Charles Darwin que, no cap. IV da “Descendência do Homem,” lançou os alicerces de um código moral em que os credos teológicos eram substituídos pelas demonstrações da biologia. Bacon estava certo; a teoria evolucionista demonstrava que o homem é por natureza social, porque a vida social é anterior à vida do homem e a humanidade já surgiu com a sociabilidade no sangue.

Ao contrário do que dizem os teólogos bíblicos, o homem foi “bem feito.” O humanismo espiritocêntrico proposto pelo Espiritismo, independentemente de razões antropológicas e históricas, nos convida a crer no homem, sobretudo, por ser o homem a melhor e mais perfeita obra de Deus que conhecemos e, portanto, crer no homem é crer em Deus.
O conceito filosófico de imanência como um atributo de Deus sugere que a ação divina se manifesta na intimidade do homem na medida em que os desafios da convivência se tornam imperativos, exigindo soluções inteligentes. Neste processo ele se torna, naturalmente, mais atento, mais sensível à presença divina que convida ao amor.

Como se vê, na medida em que dispusermos de robusta filosofia de vida e o espírito de exame sobrepujar, enfim, o espírito de aceitação, poderemos fazer no campo moral o mesmo tipo de seleção que já aprendemos a fazer no da alimentação. Pela experiência e pelo conhecimento racional das conseqüências em todos os níveis, descobriremos a conveniência humana do bem, criando assim condições para a institucionalização de uma ética natural capaz de substituir as sanções sobrenaturais como sonhava Sócrates.

É interessante notar que estas reflexões, antes de nos afastarem da idéia de Deus, marcam uma significativa mudança na compreensão humana do mesmo que, deixando de ser mero síndico a quem apelamos para solução de conflitos nas nossas relações condominiais, transforma-se no legislador que concebe as grandes leis da convivência para as quais não existe apelação.
Maurice Herbert Jones

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O VELHO DE KAFKA

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Em sua obra "A Revolução da Esperança”, o psicanalista Erich Fromm cita uma intrigante história do livro “O Processo” de Franz Kafka. Um homem chega à porta que conduz ao céu (a Lei) e pede ao porteiro que deixe entrar. Este lhe diz que não pode admiti-lo no momento. Embora a porta que leva à Lei esteja aberta, o homem decide que é melhor esperar até ter permissão para entrar. Ele se senta e espera durante dias e anos. Finalmente ele está velho e próximo da morte. Pela primeira vez, ele faz a pergunta: “Como é que durante todos esses anos, ninguém a não ser eu procurou entrar?” O porteiro respondeu: “Ninguém a não ser você poderia ter permissão de cruzar esta porta, porquanto ela estava destinada a você. Agora vou fechá-la.”

Os burocratas têm a última palavra. Esta é a moral da história de Kafka; se eles dizem não, ele não pode entrar. Se tivesse tido mais do que essa esperança passiva, ele teria entrado, e sua coragem para ignorar os burocratas teria sido o ato libertador.
Muitos, diz Erich Fromm, são com o velho de Kafka. Eles esperam, mas não lhes cabe agir segundo o impulso do coração e, enquanto os burocratas não lhes dão o sinal verde, eles prosseguem esperando.


Os mais bem informados opositores do processo que temos chamado de ”atualização do espiritismo”, não negam a necessidade eventual dessa medida, enfaticamente recomendada por Kardec, e sim a competência dos humanos encarnados para realizá-la. Segundo eles, cabe exclusivamente aos chamados espíritos superiores, detentores dos direitos autorais do Espiritismo, qualquer iniciativa neste sentido. De acordo com esta visão, a nós outros, encarnados, restaria aguardar passivamente alguns “sinais do céu” que nos autorizariam a receber deles os conteúdos atualizadores.
O paralelo é evidente. O processo idolátrico caracteriza-se especialmente pela submissão simbiótica e preocupação neurótica de alienar-se, esvaziar-se em benefício do ídolo, seja ele uma pessoa uma idéia ou uma instituição. No caso em exame fica clara a disposição idolátrica dos que recusam aos espíritos encarnados autoridade ou capacidade para administrar o necessário processo de atualização.
Não conseguimos encontrar na obra e no exemplo de Kardec nenhum amparo para esta estranha e imobilista posição. Como estacionar, como interromper o caminho como se tivéssemos alcançado o inalcançável? Como ficar a espera da hipotética e discutível iniciativa de uma entidade virtual, indefinível que denominamos espíritos superiores?
Kardec era ação, iniciativa. A porta estava aberta e ele destemidamente a atravessou. Construiu o Espiritismo utilizando material já recolhido por outros pesquisadores e, a partir daí, interrogando direta e metodicamente vários espíritos. Nunca se afirmou, porém, que as lúcidas e instigantes perguntas com as quais Kardec partejava o espiritismo nascente fossem ditadas ou sugeridas pelos espíritos o que, segundo me parece, atesta que a condução do processo pertencia a ele, Kardec, tendo os espíritos como assessores ou como “elementos de instrução”. No que se refere à elaboração do Livro dos Espíritos, isto fica claro em “Obras Póstumas – 2ª Parte – Minha iniciação no Espiritismo” onde Kardec, depois de se dar conta das limitações individuais dos espíritos com os quais dialogava, afirma: “Incumbe ao observador formar o conjunto, coordenando, colecionando e conferindo, uns com os outros, documentos que tenha recolhido. Procedi com os espíritos como teria feito com os homens; considerei-os, desde o menor até ao maior, como elementos de instrução e não como reveladores predestinados.”
Mais adiante, no mesmo capítulo, referindo-se ao processo de revisão dos originais de O Livro dos Espíritos, Kardec assevera: “Tendo-me relacionado com outros médiuns, sempre que se me oferecia ocasião, a aproveitava para propor algumas das perguntas que me pareciam mais espinhosas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram a sua assistência ao trabalho e foi da comparação e da fusão de todas essas respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes remoídas no silêncio da meditação, que formei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, aparecida a 18 de abril de 1857.”
Considerando as respostas dos espíritos como opinião pessoal de cada um deles, Kardec as censurava, comparava e fundia, isto é, editava estas respostas à luz do seu conhecimento e da sua sensibilidade, fixando assim sua primazia no processo.
O Espiritismo é intrinsecamente dinâmico e sujeito, portanto, a um permanente processo de atualização cuja condução é, sim, responsabilidade de espíritos encarnados assim como já o fora sua codificação.
Maurice Herbert Jones

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O CORTE DE BACHELARD

Para muitos, ciência, em oposição à opinião, é todo conhecimento que inclua em qualquer forma ou medida uma garantia da própria validade, isto é, é um conhecimento demonstrativo.
O senso comum, por sua vez, é um conjunto de informações não sistematizadas que aprendemos por processos formais, informais e, às vezes inconscientes. Essas informações são, no mais das vezes, fragmentárias e podem incluir fatos históricos, doutrinas religiosas, lendas, princípios ideológicos, informações científicas popularizadas bem como a experiência pessoal acumulada. Quando emitimos opiniões, lançamos mão desse estoque de coisas da maneira que nos parece mais apropriada para justificar nossos argumentos.
A ciência diferencia-se, pois, do conhecimento vulgar ou senso comum ao acrescentar critério metodológico, rigor e maior capacidade preditiva a este tipo de conhecimento ainda que o mesmo, de modo trivial e assistemático também descubra fatos, formule explicações e desenvolva teorias. Foi o senso comum apoiado em “dados” que criou as teorias da terra plana, da terra centro estático do Universo, dos seres vivos criados instantaneamente e imutáveis desde então, do homem sem ligação de origem com os demais seres vivos etc. A ciência mudou tudo isto apesar de os dados não terem mudado e sim sua interpretação. Se as coisas fossem como parecem ser, não seria preciso a ciência para tirar do que está escondido a interpretação correta dos fatos.
Quando o professor Rivail se deparou com os fenômenos que deram origem ao Espiritismo, sua natureza inquieta, perquiridora, percebeu logo a necessidade de examiná-los com critérios metodológicos ajustados às características insólitas dos mesmos, não se submetendo, assim, à apreciação superficial sugerida pelo senso comum.
Graças a este olhar diferente, inteligente, que se alongou além das aparências, foi possível extrair daqueles fatos as conseqüências filosóficas e morais que iluminam nosso caminho, mudando drasticamente a forma pela qual o homem e o mundo são percebidos. Os fatos, porém, não eram novos, sempre existiram. Eram, no entanto, interpretados pelo conhecimento vulgar como manifestações sobrenaturais, divinas ou demoníacas sem nenhuma relação racional com as supostas causas a eles associadas.
Ao interpretar racionalmente aqueles fatos, ou seja, o fenômeno mediúnico, o Professor Rivail provocou aquilo que o filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962) chamou de “corte epistemológico”, isto é, uma revolução conceptual, uma ruptura com o conhecimento superficial e ingênuo existente até então sobre o assunto. As conseqüências desta revolução ainda não puderam ser bem avaliadas.
Essa posição “descontinuista” do francês Bachelard não é de aceitação geral. Os pensadores britânicos Bertrand Russel (1872-1970) e Karl Popper (1902-1994) admitiam a existência de uma continuidade entre ciência e senso comum, no sentido de que a primeira flua do segundo, apenas possuindo uma maior sofisticação, ou seja, a ciência é somente senso comum ou conhecimento vulgar, esclarecido, educado.
Em qualquer dessas visões, porém, poderíamos dizer que, sendo uma filosofia espiritualista e tendo uma evidente interface com a religião (infelizmente hipertrofiada entre nós), o Espiritismo está para as religiões assim como a ciência está para o conhecimento vulgar. Em ambos os casos trata-se de esferas cognitivas diferentes, embora possam se referir à mesma realidade.
O Espiritismo apresenta-se, pois, no panorama da cultura humana como um novo modelo conceptual de base racional, escoimado do sobrenatural, da superstição, da idolatria, sem abdicar, entretanto de um tipo particular de especulação que avança além da ciência, completando-a prematuramente na tentativa de explicar os enigmas da vida. É uma forma totalmente nova de “pensar a realidade a partir da exigência de que a vida faça sentido” (Rubens Alves), é uma nova e viril teoria destinada a “fazer viver e fazer agir” (E.Durkheim).
Se buscarmos entender o aparecimento do Espiritismo através do enfoque proposto pelo americano Thomas Kuhn, que utiliza o termo paradigma refererindo-se aos modelos conceptuais que dominam o pensamento das comunidades durante algum tempo até serem sucedidos por modelos mais jovens e funcionais, veremos que, com a virilidade das idéias novas, o Espiritismo candidata-se, corajosamente, como substituto dos paradigmas senilizados ainda “vivos”, crescentemente incapazes de oferecer segurança e identidade.
Convém reconhecer, todavia, que o envelhecimento ou até mesmo a morte dos velhos deuses, na expressão de Emile Durkheim, não é facilmente reconhecida. A orfandade sendo muito penosa, é preferível um deus mumificado a deus nenhum, prolongando, assim, a crise de referências ao mesmo tempo em que os candidatos à sucessão são testados.
O psicanalista Hélio Pelegrini afirmou em um artigo que a angústia metafísica que nos aflige clama por uma filosofia pública sobre o significado e objetivo da vida, capaz de orientar toda a atividade humana, isto é, uma visão de homem e de mundo que possa ser racionalmente universalizada.
Os relatos bíblicos, síntese conceptual daqueles tempos e cultura, nos falam, essencialmente, de um contrato estabelecido entre o criador e as criaturas a partir do momento em que estas conquistam a racionalidade, isto é, a liberdade de desobedecer, que inaugura a história humana. Este contrato, todavia, é reformável, ajustando-se aos novos níveis de consciência e liberdade conquistados pelo homem. A iniciativa, porém, como a história nos ensina, cabe ao homem.
Quando os valores tradicionais começam a perder significado e eficácia, um novo contrato, um novo conjunto de valores deve ser concebido.
Atendendo a esta determinação histórica, Kardec, com extraordinária lucidez, identifica sinais de esgotamento do paradigma vigente e lidera uma revolução conceptual de base racional e humanista que, superando o organocentrismo iluminista propõe uma visão espíritocêntrica, isto é, que considera a dimensão extrafísica ou espiritual como fundamental, afetando, drasticamente, a forma pela qual o homem, o mundo e a história são percebidos.
Novo paradigma, corte epistemológico ou síntese dialética, a natureza original e renovadora do pensamento Espírita é evidente. Como uma flor tardia da primavera iluminista o Espiritismo surge como uma esperança de renovação capaz de oferecer ao homem a segurança e a identidade perdidas, equipando-o, assim, para avançar, confiante, mais uma etapa no processo evolutivo.
Quase um século e meio depois de seu surgimento, o Espiritismo, naquilo que o faz singular, dinâmico, revolucionário e universal é desconhecido pela maioria esmagadora dos próprios espíritas que, incapazes de compreender o alcance e a profundidade da monumental proposta de Kardec, insistem, ingenuamente, em interpretá-la à luz dos paradigmas agonizantes ou mumificados que teimam em nos influenciar, reduzindo-a, assim, a uma mera seita religiosa.
Significativamente, foi exatamente esta a interpretação do Abade François Chesnel em artigos publicados no jornal L'Univers de Paris em abril de 1859 e tão veementemente contestada pelo fundador do Espiritismo conforme ficou registrado na "Revue Spirite" de maio e julho daquele ano.
Como se vê, o padre Chesnel fez escola.
Maurice Herbert Jones

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A SÍNTESE KARDEQUIANA

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Segundo o filósofo e pacifista britânico Bertrand Russel, a Filosofia é algo que se situa entre a Teologia e a Ciência. Todo o conhecimento definido pertence à Ciência e todo dogma, pertence à Teologia.
Mas, entre a Teologia e a Ciência existe um território de ninguém, onde as nossas reflexões, as nossas idéias, os nossos mais simples pensamentos, transitam sem dificuldades, sem formalismos – esta terra de ninguém é uma terra de todos: é o chão da Filosofia.
O mundo, indaga ele, está dividido em espírito e matéria? Se assim é, o que é o espírito e o que é a matéria? Quem está sujeito a quem? Será o espírito dotado de alguma independência? Possui o universo alguma unidade ou propósito e se possui estará ele evoluindo a caminho da sua finalidade? Será que existem mesmo leis da natureza ou só acreditamos nelas devido ao nosso amor pela ordem? Existe alguma maneira de viver que seja mais nobre ou menos nobre? Em que consistiria o modo de vida nobre e como realizá-lo?
Evidentemente não encontraremos respostas a estas questões nos laboratórios. Responder a elas é empenho da Filosofia, pois, se nem todas as nossas especulações podem ser respondidas pela Ciência, é também verdade que as respostas confiantes dos teólogos, aceitas no passado, já não nos convencem mais, conclui o pensador na sua “História da Filosofia Ocidental”.
Seria o Espiritismo numa resposta inteligente a estas profundas questões de ordem filosófica? Vários elementos que estruturam o pensamento espírita respondem positivamente a esta indagação e o credenciam como um modo moderno, ventilado e revolucionário de percepção do homem e do mundo, bem como precioso instrumento pedagógico para o autoconhecimento e controle racional da própria evolução.
O grande problema da ética como estudo racional da moralidade se resume em saber se é desejável ser bom e, em caso afirmativo, como pode ser o homem persuadido a ser bom. A esta intrigante questão o Espiritismo responde com a idéia da evolução e, sobretudo, com os princípios da reencarnação e da causalidade que oferecem substrato racional riquíssimo para a adoção consciente de um modelo comportamental fundamentado na tolerância racial e social, configurando assim a ética natural, sonhada por Sócrates, capaz de construir um sistema de moralidade independente de credos teológicos.
Na visão do filósofo J.Herculano Pires, O Livro dos Espíritos, veículo privilegiado destas idéias inovadoras, mesmo não tendo sido elaborado em linguagem técnica e nem observe as minúcias da exposição filosófica, revela todo um complexo e amplo sistema de filosofia. É, portanto, o arcabouço filosófico do Espiritismo.
Como se vê, Kardec não foi um filósofo na acepção mais usual do termo, nem exatamente um cientista. Foi, isto sim, e acima de tudo, um extraordinário pedagogo, qualificação essencial para a compreensão e propagação do Espiritismo até os dias atuais.
A precoce percepção de que somente a educação e o amor poderiam encaminhar solução para os problemas sociais e morais do seu tempo fez de Kardec herdeiro natural de uma magnífica linhagem de educadores que começa, no século XVII, com Comenius, o pai da didática moderna, passa, no séc. XVIII, pelo filósofo J.J. Rousseau e seu “Emílio”, terminando no grande e sábio mestre da educação como ato de amor, J.H. Pestalozzi.
Como um estuário das correntes de idéias mais generosas e libertárias que irrigaram a cultura da Europa desde a renascença, Kardec chegou à maturidade equipado, moral e intelectualmente, para a grande tarefa de sua vida: a construção de uma síntese conceptual do mundo moderno, a Codificação Espírita, centrada na idéia da evolução e na realidade e primado da vida espiritual.
Esta extraordinária façanha, resultado do trabalho de homens encarnados, assessorados por homens desencarnados, tornou-se possível, no tempo e no espaço, pela feliz conjugação de fatores políticos, sociais, econômicos e culturais aliados à sensibilidade, lucidez e coragem do mestre educador Hippolyte Léon Denizard Rivail cujo bicentenário de nascimento comemoramos em 2004.
Segundo muitos historiadores, o Renascimento e a Reforma Luterana são as duas mais importantes nascentes da história moderna. Uma libertou o espírito e embelezou a vida, oferecendo ao homem o direito à felicidade aqui na terra; a outra estimulou a crença e o senso moral. As idéias contidas no bojo destes movimentos, propagadas pelas facilidades oferecidas pela descoberta de Gutenberg e dinamizadas pela revolução conceptual produzida pela descoberta da América e pela revelação de Copérnico, varreram a Europa a partir do final do Séc. XV e início do Séc. XVI, desencadeando uma irresistível avalanche de mudanças, crises e conflitos ideológicos num mundo cansado do repouso medieval e ansioso pela descoberta de novos mundos, novos caminhos, novas idéias.
No Século XVIII o Renascimento cede espaço para o Iluminismo que, tendo razão e liberdade como estandarte, enfrenta a superstição e a opressão, produzindo significativa redução de importância da Igreja e influindo por seus princípios na independência dos Estados Unidos e na Revolução Francesa, fatos que, entre outros, assinalam o colapso da França feudal, uma importante ampliação das liberdades civis e a transição da Idade Moderna para a Contemporânea.
Se acrescentarmos a este sintético painel o crescimento exponencial da população a partir de 1750 em função de avanços na produção agrícola, higiene e medicina e mais a revolução industrial iniciada na Inglaterra provocando intenso deslocamento das populações rurais para as cidades com todo o conjunto de conseqüências sociais, políticas e econômicas, encerraremos o século das luzes já experimentando um certo cansaço da arrogância racionalista e criando espaço para o surgimento do Romantismo que valorizando o sentimento caracteriza o século XIX, o século de Kardec.
O nascimento em 1804 e a formação intelecto-moral do futuro Codificador do Espiritismo ocorre em plena era de Napoleão que, no mesmo ano é coroado Imperador e promulga o Código Civil dos Franceses ou “Código de Napoleão”, de importância decisiva no direito ocidental e, conforme o próprio Imperador, sua maior obra.
Kardec era um homem da sua época, cosmopolita, sensível, arguto e naturalmente aberto às influências mais nobres que a história e a experiência lhe ofereciam. Enquanto aprimorava sua formação no Instituto de Pestalozzi em Yverdon e, depois, na vida profissional, como educador, outros acontecimentos ocorriam, com enorme significado e presença na sua futura e máxima obra.
Além dos importantes desdobramentos geopolíticos do período napoleônico, podemos identificar as revolucionárias teorias evolucionistas de Lamark e Darwin de enorme repercussão, a Filosofia Positivista de Auguste Comte e, até, o Manifesto Comunista de Marx e Engels, produto da agitação social da nova classe operária.
Neste cenário imponente e desafiador, buscava-se afanosamente um novo modelo conceptual para o tempo novo que surgia, pois os paradigmas vigentes haviam esgotado a capacidade de oferecer segurança e identidade. É então que, já maduro e sensível às inquietações do seu mundo e à convocação do mundo espiritual, Kardec aceita a responsabilidade de liderar o grande esforço para construção de uma nova visão de homem e de mundo, humanista e dinâmica, na qual razão e sentimento pudessem, harmonicamente, buscar a verdade.
E assim, como uma flor tardia da primavera iluminista, nascida no solo adubado pelo romantismo de Rousseau e Pestalozzi, surgiu o Espiritismo que, com seu “humanismo espiritocêntrico”, busca superar, dialeticamente, o conflito entre o pensamento medieval centrado em Deus e o humanismo organocêntrico da renascença. A cosmovisão inovadora e sintética oferecida por Kardec ao mundo nascia robusta e perturbadora, desafiando os paradigmas senis e anunciando, no dizer do físico inglês Oliver Lodge, “uma nova revolução copérnica”.

Maurice Herbert Jones

ESPANTO E REFLEXÃO

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Sócrates – Teodoro, meu caro, parece que não julgou mal tua natureza. É absolutamente de um filósofo este sentimento: espantar-se. A filosofia não tem outra origem”. (Platão – Teeteto, 155 c 8.)

O uso disciplinado da especulação racional na tentativa de compreender a realidade que se manifesta aos homens surgiu no Séc. VI a.C. nas colônias gregas da Jônia, com a preocupação inicial centrada na busca de conhecimento sobre as leis e os componentes do mundo material e mensurável. Ao contrário dos pensadores que o antecederam, Sócrates (470-399 a.C.) dizia que existe matéria infinitamente mais digna da meditação dos filósofos; é o espírito do homem. O que é o homem e em que poderá tornar-se?
Como se pode ver, este é também, o objeto privilegiado da reflexão espírita que, de maneira inteligente e com fundamentação factual responde a estas indagações, credenciando-se assim como um modo moderno e revolucionário de percepção do homem e do mundo.
Segundo Platão e Aristóteles, a experiência que dá origem ao pensar filosófico é aquilo que os gregos chamavam “thauma”, isto é, espanto, admiração, perplexidade. A filosofia começa, pois, quando algo desperta nossa admiração, espanta-nos, interroga-nos insistentemente, exige uma explicação.
O espanto e perplexidade provocados pelo fenômeno mediúnico na mente sensível e disciplinada de Allan Kardec, exigindo interpretação racional, deram nascimento à filosofia espírita, cuja identidade o filósofo J. Herculano Pires busca demonstrar na introdução de sua tradução do Livro dos Espíritos, através de lúcidas considerações, algumas das quais, de maneira livre, apresentamos a seguir.
Quando do surgimento do Espiritismo, escreve H. Pires, a dicotomia mítico-teológica que nos apresentava o mundo dividido entre o natural e o sobrenatural, foi dialeticamente superada. O sobrenatural, afirma o Espiritismo, é apenas o natural não conhecido, não explicado e as leis de Deus não são somente as leis morais, mas também as leis físicas, e aquelas não são mais do que a seqüência evolutiva destas, uma vez que tudo se encadeia no universo.
O “Livro dos Espíritos” não é apenas a pedra fundamental, o marco inicial da nova codificação, mas também seu próprio delineamento, seu núcleo central e ao mesmo tempo o arcabouço geral da doutrina.
Observa-nos que o Livro dos Espíritos começa pela metafísica, passando depois à cosmologia, à psicologia, aos problemas propriamente espíritas da origem e da natureza do espírito e suas ligações com o corpo, bem como os da vida após a morte, para chegar, com leis morais, à sociologia e à ética, e concluir, no livro IV, com as considerações de ordem teológicas sobre as penas e gozos futuros e a intervenção de Deus na vida humana. Todo um vasto sistema, sem exigências opressoras, numa estrutura livre e dinâmica.
As demais obras de Kardec partem do seu conteúdo, refletindo sua extraordinária unidade. O Livro dos Espíritos é o arcabouço filosófico do Espiritismo. É o seu tratado filosófico ainda que não tenha sido elaborado em linguagem técnica e nem observe as minúcias da exposição filosófica, revela todo um complexo e amplo sistema de filosofia. O Livro dos Espíritos revela-nos, não um filósofo, mas um educador e pedagogo que era Kardec. Daí prevalecer a didática e não a filosofia, na elaboração do livro, destacando-se aí a utilização de um método clássico da tradição filosófica, o diálogo.
Com razão Kardec afirma no cap. VI da conclusão deste livro: “Sua força está na sua filosofia, no apelo que faz à razão e ao bom senso”.
Este é o processo dialético do Espiritismo, que em vez de dar ênfase à contradição em si, à luta dos opostos, prefere dá-la à harmonia, à fusão dos contrários, para uma nova criação.
Assim, a concepção espírita ou a cosmovisão espírita não é dogmático-fideista, mas crítico-fideista.
O Livro dos Espíritos é o primeiro compêndio de uma nova escola filosófica. Sua tese fundamental é a evolução, e a natureza desta é dialética, conclui Herculano Pires.

Já o extraordinário Manuel S. Porteiro (1881/1936) em seu livro Espiritismo Dialético, afirma que o Espiritismo é ciência filosófica e, ao mesmo tempo filosofia científica. Ciência filosófica, porque deduz conclusões dos fatos que observa. Filosofia científica, porque se apóia nos fatos da psicologia, da metapsíquica e da ciência em geral.
É também ciência integral e progressiva porque se referindo ao espírito humano, à sua evolução, ao seu destino, às suas relações com a humanidade e com o universo, integra todos os conhecimentos. Sua filosofia é eminentemente dialética; sua concepção da vida, dinâmica e seu conceito de história, genético.
Sir Oliver Lodge, o grande físico inglês, destacando a natureza revolucionária do pensamento espírita, considerou o Espiritismo, no seu livro “A imortalidade pessoal”, como “uma nova revolução copérnica”.
A natureza sintética, revolucionária e livre pensadora da filosofia espírita é evidente. Esta concepção inovadora afeta drasticamente a forma pela qual o homem e o mundo são percebidos e tem óbvias implicações morais, já que sugere, racionalmente, um comportamento pessoal, familiar e social orientado para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna.

Maurice Herbert Jones

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

CONCILIAÇÃO DE SABERES

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O mundo medieval repousava em paz, embalado pela convicção da vizinhança entre a terra e Deus e a constante solicitude da divindade para com os homens quando uma voz soou na Polônia dizendo que o nosso planeta, almofada de repouso para os pés de Deus e ponto escolhido para sua peregrinação redentora, não passava de pequenino satélite de um pequenino sol. Rompendo com a concepção geocêntrica e tirando a terra de sua posição privilegiada no universo a obra revolucionária do monge Nicolau Copérnico (1473-1543) tornou-se um dos mais importantes marcos na caminhada do homem em busca do domínio da natureza. Com esta obra começou a modernidade. Começa o secularismo. Os deuses que até então haviam cuidado dos homens, percebendo sua maioridade, começaram a desaparecer, deixando-os entregues aos seus próprios recursos.
A partir daí, precipita-se a história. O homem tem pressa.
Crescentemente liberto da tradição, indiferente aos dogmas, reorienta seu pensamento. Não mais a simples meditação contemplativa ou a oca especulação acadêmica e sim o inquérito dedutivo das leis naturais. O homem, impaciente, quer construir seu paraíso aqui, na terra.
O primeiro filósofo a reconhecer como propósito da ciência o bem estar do homem, isto é, produzir, em última análise, descobertas que facilitassem sua vida, foi o insigne Francis Bacon (1561- 1626), lorde chanceler da coroa britânica, arauto da ciência moderna que, na opinião do iluminista Denis Diderot foi o homem que, ”numa época na qual era impossível escrever a história daquilo que os homens sabiam, traçou um mapa do que eles deveriam aprender”.
A exaltação baconiana da tecnologia é, mais tarde, compartilhada com entusiasmo pelo Conde de Saint-Simon, (Sansimonismo) e por Auguste Comte (positivismo) no século XIX.
E assim tem início a era tecnológica. Um racionalismo tecnicista vai a pouco e pouco superando a visão humanista tão duramente conquistada.
No nosso tempo a tecnologia é dominante, sobretudo nas “ilhas de civilização” do nosso planeta. O deus antropomórfico e seus sacerdotes ungidos que nos protegiam e orientavam estão sendo substituídos pelos novos deuses da tecnologia aos quais também nos entregamos, mesmo sem entendê-los. Continuamos assim alienados e dependentes do mistério e de seus novos sacerdotes, intérpretes de bulas e manuais escritos em linguagem estranha, hermética, só acessível a iniciados.
Diante de qualquer problema, só a eles se pode recorrer para exorcizar o mal, para nós, metafísico.
Mesmo nas áreas mais civilizadas do planeta a tecnologia é algo tão misterioso como a santíssima trindade. Usufruímos suas benesses, mas não dominamos seus princípios. Quanto mais benefícios nos oferecem, mais complexos e distantes do nosso entendimento se tornam.
É verdade que já na primeira metade do século passado começou a manifestar-se o que hoje se chama o problema da tecnologia, isto é, o problema que nasce das conseqüências que o desenvolvimento técnico do mundo moderno traz à vida individual e associativa do homem.
Os críticos da tecnologia, entre outros o escritor francês Albert Camus, identificam na máquina a causa direta ou indireta da decadência espiritual do homem. Segundo eles o mundo das máquinas é um mundo sem alma, nivelador, mortificante em que os valores do espírito foram substituídos pelo culto dos valores instrumentais e utilitários.
Estas acusações ou denúncias, mesmo sendo exageradas, põem a nu um problema efetivo que é o da acomodação do homem ao novo ambiente natural e humano produzido pela técnica.
A surpreendente expansão do fundamentalismo religioso que, na sua vertente cristã, tem base e inspiração na nação mais rica, industrializada e poderosa que o mundo conheceu, precisa ser encarada como um desafio à nossa capacidade de compreender o homem e suas motivações.
Não podendo dominar nem compreender os novos deuses que lhes são impostos, parcelas imensas da população buscam refúgio e segurança nos mais recônditos e escuros espaços de idéias mais antigas, mais familiares. Numa tentativa para ressuscitar ou manter vivos seus velhos e moribundos deuses que, bem ou mal, ofereciam identidade e alguma segurança, erguem muros e cavam trincheiras isolando-se em suas frágeis certezas.
Esta é, talvez, a gênese deste recuo, deste retorno a modelos que pareciam superados.
Se o irracionalismo espiritualista representado pelo fundamentalismo religioso é uma resposta à desumanização provocada pelo racionalismo tecnicista, uma síntese dialética se faz necessária e, talvez, urgente para superar o conflito, conciliando os aspectos mais nobres do espiritualismo e da tecnologia.
Ora, esta síntese que, para compor a tríade dialética, poderíamos denominar racionalismo espiritualista, já existia desde a metade do século XIX, com o humanismo espiritocêntrico proposto pelo Espiritismo. Kardec foi contemporâneo de Saint-Simon e Comte e, certamente, não era avesso ao progresso tecnológico. Por outro lado, pôde também vivenciar os problemas sociais, econômicos e políticos provocados pela revolução industrial, um pouco mais tardia na França. Seu gênio percebeu o conflito e desenhou um caminho para sua superação. O Espiritismo, na sua essência, é fortemente vocacionado para a conciliação dos saberes. Sua natureza sintética é evidente no permanente esforço do codificador para configurá-lo como um espaço onde fosse possível superar dialeticamente os paralisantes conflitos entre fé e razão e ciência e religião.
Onde teremos errado na compreensão e divulgação do pensamento espírita para que, um século e meio depois de seu lançamento, esta oportuna e inteligente síntese conceptual continuasse ignorada e, portanto, sem poder conquistar o que Kardec chamava, na conclusão do Livro dos Espíritos, “direito de cidadania entre os conhecimentos humanos”.
Maurice Herbert Jones

HUMANOS, SOMENTE HUMANOS

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“O homem é a única criatura que se recusa a ser o que ela é”. Albert Camus
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O enorme contingente de criaturas que, em todo o mundo, se dedica com amor a atividades de promoção do ser humano nos convida a fazer uma reflexão sobre nosso papel e, sobretudo, sobre a inspiração e os motivos que nos levam a trabalhar e a sofrer por ideais de natureza filosófica, política ou religiosa buscando, consciente ou inconscientemente, aperfeiçoar o que nos parece imperfeito, participando assim da construção de um mundo que possa ser mais amado.
Por que fazemos o que fazemos? Por que ao invés de somente viver e sobreviver, aceitando obedientemente o cenário e o texto que nos é oferecido, resolvemos desobedecer e sonhar e plantar jardins, construir tambores, flautas e harpas, escrever poemas, construir casas, teatros, universidades, cidades?
Isto faz de nós, realmente, criaturas singulares no concerto da natureza que conhecemos. Diferentemente dos animais, perfeitamente ajustados ao mundo físico, os homens parecem ser, constitucionalmente, desadaptados ao mundo tal como ele lhes é dado.
O psicanalista e escritor Rubem Alves, que nos inspira nesta reflexão, diz que uma das respostas a este tipo de indagação é que o homem, antes de ser racional, é um ser de desejo. Desejo é sintoma de privação, de ausência e pertence aos seres que se sentem insatisfeitos com o que o espaço e o tempo presente lhes oferecem. Eles sabem que o mundo é uma construção e, portanto, perfectível. Sofremos de uma “nostalgia do futuro”, uma espécie de saudade de um tempo que há de vir que começa no momento mágico, naquele ponto de mutação em que, com o despertar da razão, foi firmado o contrato de parceria com a Inteligência Suprema que inaugurou a história humana.
Esta é a glória e, ao mesmo tempo, a maldição da condição humana. Na busca deste mundo mais perfeito que os homens desejam, imaginam e, a pouco e pouco, constroem, empenhamos as mais nobres das nossas qualificações morais e intelectuais, mas como contrapartida, temos que enfrentar a maldição da neurose e o terror da angústia, inexistentes no paraíso da natureza infra-humana. A harmonia original, pré-individualista, é substituída pelo conflito e pela luta, recursos pedagógicos utilizados para desenvolver nossa capacidade de pensar e de amar. A Inteligência Suprema, de certa forma presente no recôndito das estruturas mais sutis da nossa individualidade, não bloqueia e sim estimula, permanentemente, a parceria humana, mesmo quando incipiente e desastrada.
Somos o que somos porque para isto fomos inteligentemente programados. Viver, viver mais, viver melhor é a legenda que sintetiza todas as motivações humanas.
Fazemos o que fazemos porque somos humanos, somente humanos.

Maurice Herbert Jones

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

IMPEFEITO, PORÉM PERFECTÍVEL

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A visão espírita de homem e de mundo é teleológica significando isto que acreditamos que o processo histórico da humanidade é explicável como um trajeto em direção a uma finalidade que, em última instância, é a realização plena e exeqüível do espírito humano.
Esta visão evolucionista e otimista nos convida a interpretar as mazelas sociais como acidentes de percurso no processo civilizatório e as crises que daí surgem, como uma reação positiva do organismo social que, demonstrando saúde, é capaz de utilizar o conjunto de instrumentos de que dispõe uma cultura para conservar-se, superar crises, renovar-se e progredir. Segundo Allan Kardec, comentando a “lei de progresso” no Livro dos Espíritos, “são a tempestade e o furacão que saneiam a atmosfera, depois de a haverem revolvido, do mal fazendo surgir o bem”.
O Espiritismo não compactua com as filosofias pessimistas tão características desses momentos de crise. Trata-se de reação natural, porém marcadamente ingênua e emocional diante do choque, perplexidade e decepção que os escândalos, sobretudo os morais, provocam. O humanismo espírita é radical e crê inabalavelmente na capacidade de o homem traçar o seu destino, libertando-se progressivamente dos condicionamentos de qualquer espécie.
O homem não é mau; o homem é imperfeito, porém perfectível.
Maurice Herbert Jones